A condição zapping da Geração Z

A condição zapping da Geração Z

Parece-me que em 2005 todos assistiam, já consolidada e madura, as discussões e os estudos sobre a Geração Y (1970-1980) com todos os analistas e o mercado atento às tendências e necessidades (ou oportunidades) desta geração. Mas, logo depois disto, o que se assistiu foi uma ascensão meteórica da Geração Z (zapping de 1990). Atualmente, tenho feito reuniões com interlocutores que tinham de 10 a 11 anos de idade quando os negócios digitais começaram a nascer no Brasil. A preocupação deles nesta época era algo como Cavaleiro do Zodiaco, Pokemón e o lançamento do cartoon Bob Esponja (1999). Só que, passada uma década, estes caras hoje possuem uma influência e uma fluência no conhecimento que realmente traz todo um desafio para indústria da comunicação, serviços e consumo.

Mesmo jovens demais, esta Geração zapping me faz ver quanto é complexo analisar o que é experiência e maturidade num ambiente de aprendizado, consumo de informação e tomada de decisão sobre produtos e serviços. Tudo com lucidez e rapidez, através da absorção, manipulação, condição analítica e crítica, que fazem realmente uma baita diferença na condição prática de se ir para o “game” da vida que esta geração tem, numa grande vantagem nesta partida. Os pessimistas e céticos de plantão, com o avanço desta Geração Z, ficam torcendo para surgir os tropeços relacionados ao ritmo muito veloz, com a superficialidade e, principalmente, com a pane pelo excesso de informação.

Faz algum tempo ouvi do sociólogo italiano, o professor da USP Massimo di Felice, uma interessante resposta para esta condição que acusa os atuais tempos de “excesso” de informação (já que esta nova geração é a que mais faz uso múltiplo da informação): “Excesso de informação? Mas imagine a informação religiosa transformada em arte pelo Renascimento, para um público iletrado – já que conhecimento formal era restrito ao clero e pequena parte da nobreza, frequentando as igrejas iluminadas a tochas, absorvendo as histórias nas paredes por trás dos afrescos, um excesso de informação em cada cena pintada, que complementavam a informação do sermão?”

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Teto panorâmico da Capela Sistina, Vaticano

Apontar o cluster de informação pode não ser uma boa aposta, pois a mente humana tem condição de evolução e adaptação incrível. E isto será definitivo para Geração Z, principalmente com sua enorme condição de zapping do conhecimento. Ouvi outra interessante consideração do escritor italiano Giuliano da Empoli: “As artes dos vídeo-games terão a mesma importância artística no futuro que a Arte Renascentista”.

Veja bem, isto pode assustar, mas é no futuro que cabem as previsões (podendo nunca se realizarem) e é comum a análise de que detestamos uma realidade não do presente, mas do futuro. Daí o susto. Considerando que Giuliano é diretor da Bienal de Veneza e um representante da Geração Y, existem não só coragem nesta afirmação, mas uma generosa dose de observação da consistência da condição do humano atual, que tende em se transformar em como esta geração e suas produções podem ser vistas pela sociedade futura.

A questão chave da Geração Z, acredito, não é o excesso de informações coletadas, mas a qualidade de decodificação desta mensagem. É nisto que eles se destacam e são realmente incríveis e fascinantes! Para exemplificar vou citar um caso com meu filho de 8 anos:

Num almoço em família à beira mar, comentei com minha esposa sobre um comercial de TV que havia ganho Cannes e que eu achava incrível: o filme “Cachorro Peixe” da AlmapBBDO para Volkswagen. O personagem inventado pelo filme parecia ter saído da tela As Tentações de Santo Antão, do pintor holandês Bosch, que inspirou os surrealistas séculos depois. Meu filho, junto à mesa, mesmo assistindo a uma partida de futebol na areia da praia, disse: “É legal, cabe tudo que você imaginar!”.

Fiquei intrigado, e pensei, sem lembrar: será que este é o slogan do filme? Bem, procurei no ato pelo celular e, sim, era este o slogan de assinatura final do filme. E isto resumia o carro SpaceFox da Volkswagen em questão. Cabe tudo que você imaginar. E aquela mensagem tinha sido decodificada e lembrada por um garoto de apenas 8 anos. Na hora tuitei isto e o Marcelo Serpa (@marcelloserpa), diretor criativo do filme, retuitou sobre o que eu havia escrito, com o seguinte complemento: “Assim é bom ganhar!”, se referindo sobre a mensagem do filme ganhador em Cannes ser reconhecida e lembrada por uma criança.

Procurar estudar as possibilidades futuras da vida adulta da Geração Z consiste no grande desafio para diversos setores da economia, que querem estar ao lado desta geração, com seus produtos e serviços. Querem ainda fazer parte de uma parcela do zapping de escolha desta sociedade do amanhã e entrar no fluxo das múltiplas decodificações. Sem dúvida, os “Z” exercerão uma importante e consistente mudança, que hoje deixa ávida a indústria na busca pelo entendimento de oportunidades e que pode garantir a perpetuidade ou não de seus produtos e marcas.

“A principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe.” Jean Piaget, epistemólogo e psicólogo suiço, autor da Teoria Cognitiva.

canatella

Alexandre Canatella, CEO da e-Midia gestora dos portais CyberCook, CyberDiet e Vila Mulher. Twitter: @Ale_Canatella

 

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4 Comments em “A condição zapping da Geração Z”

  • Juliano Souto Moreira escrito em 22 março, 2010, 14:39

    Fantástico!

    No entanto, acredito que o excesso de informação mesmo para nós que vivenciamos essa geração, pode nos prejudicar. Muitas vezes me vejo como uma “cobaia” do mundo “tech”: viver utilizando novos serviços e produtos, cansa o intelecto. Pode ser que ao fim, sobre coisas mais sólidas (google like), caso contrário a guerra das gigantes por poder oferecer os melhores serviços e produtos vai nos cansar.

    Abraço!

  • Mirko Mayeroff escrito em 23 março, 2010, 16:15

    Bem legal e atual o seu artigo!
    Tenho claro q essas novas gerações estão muito mais prontas a filtrar a avalanche de informaçao q recai sobre elas, a decifrar o foco e identificar a mensagem. Minha grande preocupação é quanto à hora da escolha. Entendo q devemos pensar em como prepará-los para ser acertivos, sem medo de errar. Para ser agressivos sem pecar pela arrogância, e para fazer escolhas levando em conta “valores”, caráter e respeito (próprio e em relaçao a 3ºs). Sem manipular ou ser manipulado…
    GRANDE abraço!
    Mirko

  • Patricia escrito em 3 abril, 2010, 14:42

    Gostei muito do assunto e queria pedir uma ajuda para levantar biografias sobe a Geração Z pois preciso citá-los na minha monografia. Apesar de discutir um assunto totalmente ‘digital onde todas as pesquisas que encontro estão na internet, a monografia ainda exige que os levantamentos sejam feitos através de livros. Alguém pode me ajudar com isso? ALguém conhece algum escritos que esteja falando sobre a Geração Z? Muito obrigada

  • Eduardo Blanco escrito em 15 abril, 2012, 8:52

    Ótima visão sobre o asunto do qual devemos falar cada vés mais. Geração Z.
    Abs

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