Em pleno sol de meio-dia, um velhinho engatinha pela calçada procurando algo no chão. Um bom samaritano (na época ainda havia alguns) percebe e tenta ajudá-lo:
- O senhor deixou cair alguma coisa por aqui?
- Não, não, deixei cair em casa mas lá é muito escuro. Aqui fora é mais fácil de ver.
Essa piada antiga explica, pra mim, parte do buzz em torno de Social Media. Quem é do meio sabe que a solução está em outro lugar, o buraco é muito mais embaixo, e tudo o que envolve internet é como o gato da Alice: a hora em que você o encontra ele não está mais lá, só ficou o sorriso pairando no ar. Ou, pra ser menos literário, internet é um bagre ensaboado. E quem gosta de coisas que dão trabalho? Ninguém.
Por isso show de mágica é um sucesso. Já pensou serrar um cretino em dois sem a polícia correr atrás de você? Ou fazer um chato virar uma revoada de pombos? Até eu sonho com isso. Mas… life sucks. Tudo dá trabalho. E mesmo o Cirque de Soleil só é tão mágico porque os caras ralam dia e noite sem parar. Mas… isso não interessa a ninguém, certo? Acreditemos em magia, então.
Internet parece mágica. Ou melhor, a Califórnia parece mágica: só lá mesmo pra alguém bancar projetos que só tem custo (e bota custo nisso) e nenhuma receita. Ou quase nenhuma. É a Terra do Nunca em que ninguém vira gente grande. E, o mais intrigante, um monte de gente grande sai vendendo esse peixe de que internet se resolve num passe de mágica.
Eu não gosto de mágica. Eu não gosto de mágicos. Os Mister M da Social Media sobrevivem de truques baratos:
1.Todo mundo está na Social Media:
-Primeiro: o que é Social Media? Minha suspeita é que, pra engordar os números, tudo vira Social Media, de Live Messenger a Linkedin passando por BBS. E isso me cheira a manipulação de numeros.
-Segundo: todo mundo quem? Claro que os números são grandes, mas isso não quer dizer que teu target esteja lá.
-Terceiro: defina “estar”. Tenho certeza de que se alguém mapeasse o que esse povo anda fazendo na Social Media ia enrubescer frades de pedra. Convenhamos: se estivessem fazendo algo que presta esse país já era Primeiro Mundo.
2.Marcas devem conversar
-Defina “conversar”. Pra uma empresa com milhões de consumidores como fazer pra conversar um a um de maneira sustentável? Você até pode abrir um canal de conversas, mas prepare-se pra uma crise nervosa.
-Que marcas? A Apple conversa? O Google conversa? Sorry, mas essas marcas são adoradas pelo seu trabalho, não por conversas de comadre.
-Defina “devem”. Eu não quero conversar com o fabricante do meu carro. Eu quero esquecer que ele existe. Se eu lembrei do fabricante vou procurar outro.
3.Lá fora dá certo
-Well, democracia dá certo lá fora. Justiça também. E inovação. E educação. E qualidade de vida. E camembert. Ou seja: fórmula importada não funciona com ingredientes tupiniquins.
4. Social Media dá resultados mensuráveis
-De novo a piada do velhinho ao sol: ok, temos números, mas qual a relevância? Quanto custa medir o irrelevante com duas casas depois da vírgula? Preferível ter uma noção aproximada de algo que faça diferença.
Se deixar esse velhinho aqui ainda vai achar mais bizarrices nos cantos escuros dessa história. Ninguém vai dar ouvidos, claro, pois ilusões fazem sucesso e vendem pra burro. Nada dá mais dinheiro do que auto-ajuda ou Paulo-Coelhices da vida. Alguém já disse que tecnologia boa parece mágica, não? A questão é outra: se parecer mágico pode até ser ruim que vende. E como.
René de Paula Jr, 45, teimando no mercado interativo há 14 anos @renedepaula









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