Que fim levaram as pessoas?
- Segunda-Feira, 1 de Março de 2010, 12:04
- Colaboradores, Keid Sammour
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Se eu fosse abrir uma empresa hoje, com certeza apostaria em algo relacionado ao conhecimento. Não qualquer tipo de conhecimento, mas algo específico. Eu apostaria em ampliar o entendimento sobre as pessoas, em um sentido mais psicológico e humano,em vez do tecnológico ou empresarial. Entender mais sobre o que somos antes dos rótulos de consumidor, cliente, prospect ou target.
Ninguém discorda que nossas vidas estão e estarão invariavelmente permeadas pela tecnologia. Socialização, agrupamento voluntário por afinidade e a vida acontecendo ao vivo, com certeza evoluirão para ferramentas e plataformas ainda mais fáceis, intuitivas e instantâneas.
Não sabemos se as pessoas vão querer ou precisar disso, mas elas vão surgir. E é aí que está estranho, já que deixamos as pessoas de lado nesse processo e focamos na tecnologia por si mesma. Sites tornam-se fenômenos pelo seu tamanho, não pelos motivos de uso. Como disse o pessoal da agência Substance, estamos mais media do que social.
É senso comum o discurso de termos muito mais informação agora do que em qualquer período na história da humanidade. E é senso comum também a nossa percepção de que, na maior parte das vezes, é apenas um fluxo interminável de fragmentos de dados que nem chega a se tornar informação. Mais óbvio ainda, é que, mesmo que se transformasse, informação não é necessariamente conhecimento. E quais os efeitos disso na prática?
Sites tornam-se fenômenos pelo seu tamanho, não pelos motivos de uso. Como disse o pessoal da agência Substance, estamos mais media do que social.
Por mais fascinante que essa enorme quantidade de dados disponível possa parecer, definitivamente entramos em uma realidade de convulsões, mudanças, memes e fragmentação. Pela ineficiência (ou inexistência mesmo) de filtros, cada vez mais as pessoas sofrerão de uma espécie de Apneia da Informação, expressão criada pela empresa de pesquisa e tendências The Future Laboratory. De acordo com o seu diretor, Martin Raymond, todos estão enfrentando uma época de exaustão física, mental e estética, onde os consumidores começam a se desligar, e buscam de um estilo de vida mais essencial e simples. Mas, por outro lado, também buscam maneiras criativas, aculturadas e despreocupadas para investirem seu tempo e dinheiro. Uma espécie de “basta!” silencioso.
Sob outra perspectiva, o efeito colateral desse tsunami informacional é o que o historiador Robert Proctor chama de Agnotologia, ou o estudo da ignorância culturalmente construída. Proctor argumenta que quando a sociedade não sabe algo, geralmente é por conta de grupos com interesses especiais trabalhando arduamente para criar confusão e desencontro. Há exemplos de grupos anti-Obama nos EUA que, na época da eleição, despejaram milhões de dólares para torná-lo muçulmano. Ou indústrias petrolíferas e automobilísticas que cuidadosamente espalham dúvidas sobre a existência do aquecimento global.
Soa tão fantasioso como as melhores teorias da conspiração, mas o historiador afirma que a ignorância também vem de pessoas ou ‘grupos com interesses especiais’ que fazem de tudo para esconder – ou abafar – a verdade, ou, como no caso do tsunami informacional, tornar as informações tão confusas que as pessoas param de querer descobrir a verdade atrás dos fatos. E isso sim, soa verdadeiro. Fatos, hoje em dia, definham perante o vigor da opinião. A verdade, ou aquilo que nos liberta por ser uma fonte confiável de informação e conhecimento, está morrendo.
Por isso eu apostaria em uma empresa que cria ou filtra conhecimento. Conheci dois modelos interessantes e inspiradores, que me fazem sonhar com uma solução possível para essa bagunça que vivemos.
Fatos, hoje em dia, definham perante o vigor da opinião. A verdade, ou aquilo que nos liberta por ser uma fonte confiável de informação e conhecimento, está morrendo.
Na criação de conhecimento: existe o brilhante trabalho da agência inglesa de planejamento co-criativo Face. A agência cria comunidades fechadas (e restritas) que recompensam os consumidores que participam dos projetos com prêmios tentadores. O critério de seleção é extremamente rigoroso, o que garante a qualidade das pessoas que lá estão. A Face tem duas comunidades onde empresas como Unilever, Coca-Cola e Google investem na co-criação de produtos com gente de verdade: A Headbox – uma comunidade para jovens de 12 a 25 anos -, e a MindBubble, que reúne mulheres de 25 a 50 anos.
Na filtragem de conhecimento: temos um belo exemplo brasileiro: A Inesplorato, uma empresa de curadoria de conhecimento. Conforme eles se apresentam, Inesplorato quer dizer desconhecido, em italiano. Curamos este desconhecido amontoado e o traduzimos em conhecimento simplificado, fácil e tátil. Para salvar as pessoas dessa avalanche de informação, a Inesplorato oferece a quem contrata sua curadoria, a possibilidade da construção de um repertório pessoal/profissional/empresarial mais rico, sólido e reflexivo. Para tanto, os curadores pesquisam e interpretam – sob uma ótica multidisciplinar – conteúdos que ajudem a entender o que já foi construído no passado e o que acontece no presente.
Acho importante deixar de lado todo esse circo árido da tecnologia, pois ela é apenas um sintoma. A grande questão para o futuro é sanar o desconhecimento daquilo que é, ao mesmo tempo, antídoto e causa dos tempos que vivemos: as pessoas.
Para saber mais:
Substance
More Social, Less Media
Robert Proctor
Perfil na universidade Stanford
Agnotology: The Making and Unmaking of Ignorance,
Entrevista
Keid Sammour é xamã da CuboCC



Muito bom! Obrigado pela sua participação aqui na ResultsON.
Eu é que agradeço vocês, Bob. Muito bom para mim estar aqui :-)