O} Criativo

O} Criativo

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Mauro era criativo. Usava alargador na orelha, tênis Nike vintage e tinha tatuagens. Tatuagens que, assim como outros 2 bilhões de seres humanos, ele havia feito pra mostrar o quanto era ÚNICO. Mauro trabalhava numa agência de propaganda. Tinha sacadas e mais sacadas, sem parar. E tinha também problemas. O principal deles era “Aquela-Mina-do-Atendimento”, a Natasha.

Natasha era insensível. Natasha não entendia de arte. Nem de inspiração, nem de nada. Seu negócio era prazo. Prazo, prazo, prazo, palavra repetida como mantra às avessas, mantra infernal! E dinheiro. Essa era sua outra preocupação. Ela e o pessoal mais “comum” da agência… “Não criativos”… Aquela gente tacanha só pensava em dinheiro!

Não que Mauro não gostasse de grana. Adorava, claro, mesmo que não ganhasse tão bem assim… Adorava, mas sabia que ainda ia ganhar. Por enquanto, valia a pena ralar, porque na Criação ele exercia seu dom e podia trabalhar num ambiente descolado e criativamente estimulante (o que, na prática, significava que podia deixar bonequinhos em cima da mesa e trabalhar ouvindo som alto no fone até ficar surdo).

Mauro sabia que era apenas uma questão de tempo até que uma de suas geniais criações ganhasse um Leão ou outro bicho imponente. Com aquele visual descolado, aquele vasto conhecimento sobre bandas de rock indie e música eletrônica, ele iria longe. Mas não foi muito, não. No máximo até um ou outro restaurante étnico com música lounge (criativos gostam de coisas que alguém lhes diz serem exóticas). Ou a alguma festinha de publicitários, daquelas patrocinadas por alguma marca, onde todo mundo fica bêbado, mas ninguém fica amigo.

Pois foi justamente numa dessas festas que o Destino (que também é suuupercriativo) resolveu pregar uma peça em Mauro e em… Natasha! Pois é. Não é que eles se cruzaram, ou melhor, suas mãos se cruzaram, em meio ao gelo e à água suja que fica no fundo do cooler de breja? Foi ali que eles brigaram pela última cerveja gelada da baladjenha. E foi ali também, diante daquele recipiente vazio, que começaram a conversar, já BEM travados, e acabaram rindo do pessoal da Criação, rindo do seu Norberto (o CEO fodão da agência), rindo de si mesmos… E foi atrás daquele cooler que… (cruz, credo, “atrás daquele cooler” é uma frase horrorosa, mas foi isso mesmo que rolou), atrás daquele cooler, eu dizia, que eles se pegaram nos mais ardentes e menos criativos beijos, porque homem é homem e mulher é mulher desde que o mundo é mundo, amigo. Não tem essa de “eu sou da criação, você do atendimento”, não.

E foi assim que Mauro acabou dando o primeiro passo para a concepção de sua mais bela obra. Pois é. Mauro, que nunca havia brilhado na Criação (nem brilharia nunca), produziu com – quem diria! – Natasha, sua arquirrival, uma menina bonita e esperta, chamada Rafaela. Que não ganhou Leão, mas um ursinho de pelúcia chamado Washington. E viveram felizes para sempre, igualzinho família de propaganda de margarina – o que, aliás, era o forte do Mauro.

LUIZ MARCONDES é autor de A FASE AZUL, pela Multifoco. Ele tuíta aqui.

 

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