O} gente boa
- Segunda-Feira, 26 de Maio de 2008, 14:28
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– E aí, joinha? Sempre ralando, hein, Tonhão? Cara, dá gosto ver você trabalhando!
– Quem quer alguma coisa lá de baixo? Tô indo na padaria! Não, depois a gente acerta…! Guarda esse dinheiro!
Osvaldo era gente boa. Aliás, melhor dizendo, era “o” gente boa. Arquetípico, quase. De tanto que encarnava o princípio da simpatia superficial corporativa. Quando Osvaldo falava com você, olhava nos seus olhos e te chamava pelo nome. Cara, você se sentia especial. Tenho certeza de que Osvaldo e seu jeito extrovertido de ser eram um raio de sol na vida de muita gente, não apenas na minha.
– Grande Celsão, tá arrebentando em vendas!
O Celsão era da contabilidade. Mas isso não importava. O que importava pro Osvaldo era ser gente boa, sempre. Como se isso fosse lhe garantir pontos pra entrar no Céu… Ou no seleto grupo conhecido como “board” da empresa.
– Tá aí a mulher mais elegante deste departamento!
– Osvaldo, eu sou a ÚNICANICA mulher deste departamento! – respondeu a Lourdes.
– Eu sei! Mas, se tivesse alguma outra, não seria tão chique como você!
E por aí vai. Assim era o dia-a-dia de Osvaldo: um show de gentilezas mais ou menos falsas. Um espetáculo de leves e inofensivas gracinhas.Um dia quis o destino, sob a forma de um inesperado corte de funcionários, que eu tivesse de chamar o Osvaldo à minha sala para uma conversa. Eu tinha que demiti-lo. Creio que eu estava mais nervoso do que ele; tentei ser direto, franco… Mas gaguejei um pouco. E acabei enrolando demais pra chegar ao assunto.
Quando finalmente falei que teria de mandá-lo embora, fiquei de queixo caído com sua resposta. Osvaldo simplesmente me deu uma listinha de pessoas que ganhavam mais e produziam menos do que ele, e das quais eu não sentiria a menor falta. Tudo com explicações detalhadas, racionais, convincentes até, justificando que eu as demitisse no lugar dele. E eram as mesmas pessoas que ele cumprimentava todo dia com seus gracejos. Fiquei perplexo. Foi só nessa hora que me dei conta da verdade: Osvaldo era “gente boa”, mas não era boa gente.
Escrito por Luiz Marcondes
Todo mês a ResultsON fala de um dos tipos da fauna corporativa neste espaço. Mande sua sugestão
Todo mês, a ResultsON fala de um dos tipos da fauna corporativa neste espaço. mande sua sugestão: marcondes_luiz@hotmail.com

